segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Bia!

Há 8 meses eu me mudei para Cachoeira - cidade de intenso calor no Reconcâvo da Bahia. A vontade de fazer o curso dos meus sonhos - e agora da minha realidade - me fez cortar o cordão umbilical que me ligava a minha mãe. Mas, esses dias, pensei quantas pessoas "nativas" de Cachoeira eu conheço? E pude perceber que quase ninguém. A maioria dos meus colegas e amigos se restringe as pessoas da faculdade.
Moro numa casa rodiado de vizinhos que só conheço nada mais do que os tons das suas vozes em breves cumprimentos corriqueiros. Bom dia! Boa tarde! Boa noite! Mas um vizinho, ou melhor uma mini-vizinha me chamou atenção. Bia.
Bem cedinho, acordava aos berros: - Biiiiiiaaaaaa, vá tomar banho!! - Biaaaaaaaa, venha tomar café! - Biaaaaa, você uma menina de 5 anos ainda faz uma coisa dessa!
A menininha me pareceu uma diabinha encarnada em pele de criança.
Chegou ao ponto de eu saber toda a rotina da casa de Bia - uma casa que ficava no fundo da minha e que eu nem sei onde fica. Bia tem um irmão, Armadinho. O nome de seu pai era Jorge e o nome de sua mãe eu nunca descobri - acho que só ela fala naquela casa.
Vocês já devem está pensando "Que menino fofoqueiro! Que absurdo". O pior que não! Eu sou obrigado a ouvir tudo isso. Não tem como parar de ouvir. Salta aos meus ouvidos.
Na terça passada acordei anormalmente. Não vi barulhos no fundo da casa. A movimentação matinal de todos os dias não era a mesma. O amigo que mora comigo comentou: - Acho que o povo dai do fundo se mudou.
Na quarta, ocorreu o mesmo. Na quinta. Na sexta. E hoje vi novos inquilinos chegarem. Bia foi embora e eu não a conheci.
"Mas que diabos isso tem a ver comigo?" Muitos perguntarão. Respondo-lhes:
A violência vista na sociedade atual, além do egocentrismo crônico, têm levado as pessoas a se enclausurarem cada vez mais nos seus lares, colaborando para a destruição de vários elos que ocorrem no contexto de vizinhança e relações inter-pessoais. Vemos os vidros fechados, as grades no portão, mas por fim, você não poderá proteger-se de si mesmo, de suas dualidades e de sua identidade. Isso até me remeteu até a um documentário que assisti "Edifício Master" de Eduardo Coutinho. Muito bom para quem gosta de analisar a sociedade urbana de uma maneira diferente e descontraída.
Vamos ver até quantos Bias vão entrar e sair de nossas vidas e continuaremos alheios se enclausurando cada vez mais em nossas comunas.

5 comentários:

Thiago Damião disse...

Quem quer se enclausura meu amigo, mas a sociedade atual está cada vez mais fechada..
abraço

sorrir chorando disse...

muito bom, adorei o assunto, criativo parabéns, sucesso ai !

Arthur F. Farias disse...

Excelente texto thiago! ^_^

A forma leve e solta como você escreve faz com que o texto não se torne cansativo.

Boa reflexão... Abração!

Ricardo disse...

Gostei muito do seu blog, muito bom mesmo, parabéns pela imensa criatividade. mágico Richard – mágico, para eventos, mágico para festas, mágico para feiras, mágico para convenções – mágico-mágicos

DuDu Magalhães disse...

É triste saber que o "medo" nos impede de ter essas relações. Acredito muito no humanismo, no 'calor humano', sabe, conversar, abraçar as pessoas, etc. Porém, torna-se cada vez mais complexo essas atitudes. Em breve, até os 'bons dias' vão se acabar...

"Que país é esse? É a porra do 'mundo'"

abras